Estratégias energéticas, pragmatismo e o papel do GPL

EPCOL - Empresas Portuguesas de Combustíveis e Lubrificantes

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30 de janeiro de 2026

Estratégias energéticas, pragmatismo e o papel do GPL

Grande parte do debate contemporâneo sobre a transição energética continua a centrar-se na eletrificação, no hidrogénio e nos minerais críticos. No entanto, fora dos grandes centros urbanos e dos mercados mais desenvolvidos, a transição está a ocorrer de forma menos visível, mais incremental e profundamente condicionada por realidades económicas e infraestruturais. Em muitas economias em desenvolvimento, regiões periféricas e zonas rurais, o desafio central não é a otimização do sistema energético do futuro, mas o acesso fiável e imediato a energia moderna.

Nestes contextos, persistem níveis elevados de pobreza energética, limitações à expansão das redes elétricas e dificuldades de financiamento que tornam a eletrificação universal um objetivo distante no curto prazo. É neste espaço intermédio que o gás de petróleo liquefeito (GPL), composto maioritariamente por propano e butano, tem vindo a assumir um papel pragmático como combustível de transição. A sua utilização generalizada, sobretudo no segmento doméstico - nomeadamente na confeção de alimentos - tem permitido substituir combustíveis sólidos tradicionais como a lenha e o carvão vegetal, com benefícios claros em termos de saúde pública e redução de emissões locais.

A importância deste tema é reconhecida ao mais alto nível. A Agência Internacional de Energia, em conjunto com os governos do Quénia, da Noruega e dos Estados Unidos, promove este ano em Nairobi a segunda grande cimeira internacional dedicada ao acesso a combustíveis limpos para cozinhar, dando continuidade ao impulso iniciado em 2024. O objetivo é acelerar soluções concretas para os cerca de mil milhões de pessoas em África que continuam sem acesso a opções energéticas domésticas modernas.

Os Estados Unidos emergem como um actor central neste processo. O crescimento sustentado da produção norte-americana de GPL, aliado à capacidade exportadora da Costa do Golfo, consolidou o país como um dos principais fornecedores globais. Para muitos países importadores, este fornecimento representa uma alternativa relativamente estável num contexto marcado por riscos geopolíticos, constrangimentos logísticos e volatilidade em outras regiões produtoras.

Neste mercado, o papel dos comerciantes internacionais independentes é frequentemente subestimado. São estes operadores que asseguram a intermediação, a logística e a flexibilidade dos fluxos globais de GPL, permitindo redirecionar cargas em resposta a choques geopolíticos, interrupções em rotas marítimas ou eventos climáticos extremos. Em várias economias vulneráveis, perturbações no fornecimento de GPL têm efeitos quase imediatos sobre os preços dos alimentos e a estabilidade social, conferindo a decisões comerciais uma dimensão política indireta.

Do ponto de vista ambiental, o GPL apresenta vantagens inequívocas face aos combustíveis sólidos tradicionais. Para a mesma quantidade de energia útil, o propano gera menos emissões de dióxido de carbono do que o carvão e reduz drasticamente as emissões de partículas finas e de carbono negro. Em regiões onde centenas de milhões de pessoas continuam a cozinhar com biomassa tradicional, a transição para soluções mais limpas pode produzir ganhos sanitários e climáticos significativos, ainda que parciais.

Este enquadramento explica a crescente inclusão do GPL nas estratégias multilaterais de desenvolvimento. Agências internacionais e fóruns multilaterais tendem a reconhecê-lo como uma das soluções mais imediatas e escaláveis para expandir o acesso a energia doméstica limpa até 2030, em complemento à eletrificação, ao biogás e a outras opções modernas. Não se trata de substituir soluções estruturais de longo prazo, mas de colmatar falhas críticas no presente.

Regiões periféricas e zonas rurais, incluindo em países desenvolvidos, enfrentam constrangimentos semelhantes: baixa densidade populacional, elevados custos de investimento em infraestruturas elétricas e ausência de alternativas energéticas viáveis no curto prazo. Também aqui, o GPL desempenha um papel relevante como solução intermédia, reduzindo emissões locais, melhorando a qualidade do ar e assegurando fiabilidade no abastecimento energético.

No plano geopolítico, a capacidade de oferecer soluções energéticas concretas, com custos relativamente baixos e benefícios mensuráveis, tornou-se um instrumento crescente de influência. Num contexto em que a credibilidade das políticas de descarbonização depende cada vez mais da sua aplicação efectiva no terreno, o pragmatismo energético ganha centralidade.

O GPL não representa o ponto de chegada da transição energética. Representa, sim, uma ferramenta intermédia com impacto real sobre desenvolvimento, saúde pública e segurança energética. Numa era marcada pela competição entre grandes potências e pela urgência climática, a transição será tanto mais eficaz quanto mais for capaz de integrar soluções que, mesmo não completamente perfeitas, sejam operacionais e exequíveis, e contribuam de imediato e sem custos elevados para o objetivo final, que é a redução progressiva da emissão de gases causadores de efeito estufa. Ignorar esse facto é arriscar uma transição energética que existe apenas no papel - e não na vida quotidiana de milhões de pessoas.

José Alberto Oliveira, Diretor Técnico Epcol

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