A Europa encontra-se numa encruzilhada decisiva: sem uma ação política urgente, corre o risco de perder um pilar industrial estratégico que sustenta a sua segurança energética, a sua resiliência económica e a sua competitividade global. Este foi o alerta direto feito pela FuelsEurope no recém-publicado documento “A Strategic Industrial Asset Europe Cannot Afford to Lose” (Um ativo industrial estratégico que a Europa não se pode dar ao luxo de perder”), apresentado ontem em Bruxelas, na conferência de alto nível intitulada “Can Europe fuel its own future?”, na qual a EPCOL participou.
O futuro da transição energética europeia não será apenas assegurado pela ambição, mas por opções políticas fundamentadas na realidade industrial. O documento estratégico “Um Ativo Industrial Estratégico que a Europa não se pode dar ao luxo de perder ”, sublinha que a indústria de refinação e produção de combustíveis continua a ser essencial para a economia europeia e continuará a desempenhar um papel central em sectores onde a eletrificação não é viável, incluindo a aviação, o transporte marítimo e o transporte pesado/de longa distância, bem como no fornecimento de matérias-primas essenciais para outros sectores industriais, incluindo a petroquímica, a construção e a agricultura.
Mas esta base estratégica encontra-se agora sob crescente ameaça. Os elevados custos energéticos, o aumento dos preços do carbono e um quadro regulamentar cada vez mais complexo, estão a corroer a competitividade da Europa e a pôr em perigo a capacidade industrial existente. Liana Gouta, Diretora-Geral da FuelsEurope, afirmou: “A Europa não pode dar-se ao luxo de tratar a refinação e a produção de combustíveis como um setor do passado. Esta é uma capacidade industrial estratégica que sustenta a nossa segurança energética, a nossa prontidão de defesa e a nossa resiliência económica. Sem uma base industrial competitiva, não haverá uma transição credível.”
Este documento alerta para o facto de a Europa não estar simplesmente a gerir uma transição, mas estar a enfrentar um dilema estratégico: produzir e transformar internamente ou depender de outros. A falha no reconhecimento da importância estratégica do sector levaria a uma maior dependência das importações, a uma maior exposição à volatilidade dos preços e à perda irreversível de ativos industriais e de emprego.
Uma vez encerradas, as refinarias não podem ser transformadas ou substituídas, transformando as escolhas políticas de hoje em vulnerabilidades estruturais a longo prazo. Luis Cabra, Presidente da FuelsEurope, destacou a urgência desta escolha: “A Europa deve decidir se quer continuar a produzir combustíveis e produtos para a cadeia de valor industrial, ou tornar-se cada vez mais dependente das importações. O encerramento de cada refinaria é irreversível. Sem o enquadramento adequado, corremos o risco de substituir a autonomia estratégica pela dependência a longo prazo.”
No cerne do relatório encontra-se uma mensagem política clara: a transição só terá sucesso se se basear nos ativos industriais existentes da Europa, e não se os desmantelar. A conversão das refinarias existentes em centros de produção de baixo carbono é identificada como o caminho mais rápido, mais rentável e mais seguro para expandir a produção de combustíveis renováveis e de baixo carbono, preservando simultaneamente a capacidade industrial e evitando ativos obsoletos. No entanto, desbloquear esta transformação exigirá uma mudança decisiva na abordagem política.
Atualmente, o investimento continua a ser limitado pela incerteza, pela legislação fragmentada e pela insuficiente previsibilidade económica para projetos de longo prazo. Sem um quadro estável e previsível, o capital continuará a fluir para regiões que oferecem condições mais favoráveis, enfraquecendo a base industrial da Europa e comprometendo as suas ambições climáticas.
Luis Cabra sublinhou ainda “As tecnologias existem, a indústria está preparada e os investimentos podem ser feitos. O que falta é um quadro político coerente e previsível que dê confiança aos investidores. A Europa precisa de passar da ambição à execução.”
A transição energética da Europa só poderá ser bem-sucedida se se mantiver ancorada na força industrial, no realismo económico e na autonomia estratégica.